31 de março de 2016

Resposta a Oficial superior que nos questionava sobre a PEC443

Prezado senhor.  (Texto de 08/2015)

Esse projeto (PEC 443) tramitava “nas sombras” há algum tempo no CONGRESSO e foi a própria Revista Sociedade Militar que chamou a atenção de lideranças dos MILITARES federais sobre a possibilidade que poderia ali ser aberta. Em seguida algumas lideranças, entre elas Kelma Costa, procuraram os autores e se desencadeou o processo que todos conhecem.

Pessoalmente, como editor da Revista Sociedade Militar, creio que para os militares sempre será potencial fator prejudicial à disciplina a existência de setores organizados extra-quartel que representem a tropa, ou parte dela. É verdade, o ideal, correto, seria que o comando fosse justo, corajoso, menos político, se responsabilizasse pelas demandas da sua tropa e que o governo garantisse pelo menos a reposição inflacionária. Mas, não vivemos o ideal, o correto. E os senhores sabem muito bem disso.

Alegam que associações fomentarão a indisciplina.

Vamos falar sobre isso. 

Eu sou realista, não sou cego, sei que associações, se mal administradas, ressalto, se mal administradas, podem se tornar uma espécie de “PROCON” militar ou centro de reclamações de subordinados contra o sistema ou superiores.

Vou dizer de novo: "se mal administradas". Por que pensar que será assim?

O órfão precisa sempre de um pai. Os militares estão órfãos. Nem parlamentares somam na questão remuneratória, os senhores sabem que é vedado ao parlamento propor reajuste para a tropa.

E diante do contexto catastrófico que já se estende por muitos anos, onde não se nota um mínimo sinal de que os comandantes se esforçam em favor da sua tropa e muito menos o governo preocupado em ser justo, percebemos a ampliação dos poderes das associações como única alternativa para se manter pelo menos a tropa com um salário que atenda o mínimo de suas necessidades. 

Desafiamos os senhores a realizar uma pesquisa que questione a tropa sobre sua confiança de que seus chefes teriam coragem de arriscar suas estrelas em um debate acalorado em favor de melhorias. A visão é de que nossos chefes, ao longo da última década, tornam-se cada vez mais políticos e menos militares.

Acreditamos que caos financeiro e problemas familiares causam mais indisciplina, problemas psicológicos e gerais para a tropa do que a existência de associações com poderes de negociação têm potencial para causar. Pesquisa publicada em nosso site revela que um número substancial de militares acredita que desempenha mau seu trabalho por conta de problemas financeiros. Lembrem-se de que falamos de homens que operam armas,  operam e mantém aeronaves etc. 

Um número enorme trabalha com a mente focada unicamente em concursos públicos ou em aprender um ofício extra-caserna, para abandonar o barco o mais rápido possível.

Todos estão cientes de que a PEC em discussão não se destina a criar sindicatos, direito à greve ou coisa parecida. Portanto, acreditamos que é atualmente uma grande oportunidade para a tropa. As associações podem e deverão ser também pilares para a eleição de representantes sérios. Os militares precisam RAPIDAMENTE de alguém que grite em seu lugar, que faça a sociedade e políticos perceberem que estão no limite.

Não poderíamos deixar de  falar sobre isso na Revista Sociedade Militar

Robson A.DSilva – Editor da Revista Sociedade Militar



4 comentários:

ESPEDITO RIO DE JANEIRO disse...

Parabéns pelo posicionamento tocou exatamente na ferida. Não temos comandantes, temos chefe. A mais de 15 anos luto tentando através de associaçoes, conseguir representatividade, mas temos um grande problema de união, credo, disciplina e receio de prejudicar a família. Precisamos nos politizar pois os chefes ja o fizeram. Sgt Espedito EB.

Sgt Vitor Hugo disse...

Ótimo texto, revela a realidade da caserna!

Rinaldomisterr@yahoo. com.br disse...

Robson tem muita, muita razão mesmo.

Ricardo Mattos disse...

Na verdade o que existe entre a Tropa é um sentimento de abandono, ou cada um por si e salve-se quem puder. O problema é que a legislação impõe aos militares o exclusivismo e dedicação integral ao serviço e uma série de restrições que impede o militar de ter um segundo emprego. Nessas condições e exigências, cumpre ao Estado dar as mínimas condições para vida digna à tropa, que, no acordo coletivo, aceita abdicar de direitos constitucionais assegurados aos demais cidadãos. O problema é que, por não poder se sindicalizar, a voz da tropa está em última instância ligada ao seu Comandante maior e supremo. O primeiro é selecionado politicamente pelo segundo conforme lista de escolha e está sujeito a todo tipo de sanção, caso se oponha aos interesses do governo central. Nesse imbróglio jurídico administrativo o Comandante de Força se resume a um mero passador de demandas sem voz e capacidade de atender aos anseios dos comandados. Ou se muda a lei(estatuto dos militares) ou se aceita que existam vozes outras que representem a tropa e haja maior tolerância com a disciplina e hierarquia.